29.3.10

A volta do cabelo crespo

Esta matéria está disponível na revista época, achei super interessante compartilhar aqui:



A jazzista americana Esperanza Spalding em foto do ano passado. Beleza sem alisamento





Já faz muito tempo, mas a carioca Tatiana Barros, de 25 anos, filha de mãe branca e pai negro, ainda se lembra da cena. Ela tinha 5 anos, e sua mãe a levou ao salão de beleza. Quando a cabeleireira soltou seu rabo de cavalo e começou a desembaraçar seu cabelo, os fios muito crespos tomaram um grande volume. Para sua surpresa, quem estava em volta começou a rir. “Eu tive muita vergonha e cresci com a ideia de que havia alguma coisa errada com meu cabelo”, diz. A partir daí, não quis mais andar sem prendê-los, em especial com trancinhas bem apertadas. Adolescente, partiu para o alisamento. “Da primeira vez, saí do salão feliz pelas ruas. Meu cabelo estava reto, balançava, parecia um milagre”, afirma. Com o tempo, porém, Tatiana percebeu a armadilha. Com um mínimo de crescimento, a raiz começava a enrolar. “Eu usava faixas para tampar, molhava, puxava, mas continuava esquisito. Então, comecei a repetir o alisamento com mais frequência.” Até que um dia seu cabelo caiu. Desgastado com anos de química forte, não resistiu e quebrou-se, quase todo, na altura da nuca. “Meu cabelo morreu. Nunca vou me esquecer do meu desespero”, afirma. A partir daí, sua vida foi improvisar: cremes, gel e anos de paciência. Hoje, Tatiana, que trabalha como apresentadora de um canal de TV na internet, assumiu seus cachos. “Não acredito que passei tantos anos numa escravidão, me distanciando de minha identidade.”

No mesmo cabeleireiro em que Tatiana faz relaxamento e hidratação, o Beleza Natural, em Ipanema, grupos de mulheres de cabelos crespos têm vindo de outras cidades e Estados para dar adeus ao alisamento e à chapinha. A procura vinha crescendo há anos, mas agora disparou graças aos longos cachos de Taís Araújo, protagonista da novela das 8. A atriz, de 30 anos, pela primeira vez participa de uma novela com cabelos realmente crespos. Nem tudo aquilo é seu: metade é aplique. Mas, de três anos para cá, ela deixou seu cabelo mais natural. Ao assumir a apresentação do programa Superbonita, no canal GNT, chegou a adotar o legítimo estilo black power que fez a cabeça dos negros nos anos 1970. “O penteado da Taís mudou a preferência das mulheres”, afirma Heloísa Assis, especialista em tratamentos para cabelos crespos e cacheados e sócia do Beleza Natural, que tem dez filiais no Sudeste. Ela diz que a mudança de gosto e atitude começa entre as meninas. Em vez de alisar, o verbo favorito delas agora é enrolar. “Tudo o que as crianças precisam é de um belo referencial”, afirma.

O que está fazendo a cabeça das mulheres hoje não é exatamente o mesmo black power de antes. Este se modernizou. A secura que o mantinha rígido deu lugar à hidratação e ao relaxamento dos fios, que se mantêm enrolados, mas com movimento. “O mais importante é deixar para trás o alisamento e as quantidades perigosas de amônia e formol que representam risco à saúde dos cabelos e da dona dos cabelos. O tradicional henê, que ainda é usado, especialmente nas camadas populares, tem o chumbo como base. Uma agressão enorme aos fios”, diz o cabeleireiro paulista Julinho do Carmo. Hoje, no Brasil, estima-se que a indústria de produtos para alisamento de cabelo fature cerca de R$ 3,5 bilhões por ano. Não é mais porque a participação dos negros e pardos na classe média ainda é pequena. Nos Estados Unidos, esse mercado vale US$ 9 bilhões por ano.

Por trás desse gigantesco mercado há questões estéticas, financeiras e políticas. E palavras carregadas de estigma. O comediante americano Chris Rock partiu da reclamação chorosa de sua filha de 6 anos – “Papai, por que dizem que meu cabelo não é bom? – para fazer o documentário Good hair (Cabelo bom) , idealizado e apresentado por ele. O filme – que já foi premiado no começo do ano no Sundance Festival e estreia neste mês nos Estados Unidos – discute as práticas distorcidas causadas pela percepção do que é “cabelo bom” e “cabelo ruim”. É a mesma motivação da ex-modelo e apresentadora de TV Tyra Banks, que abraçou a ideia do cabelo natural.

No primeiro dia da nova temporada de seu show semanal, na CBS, Tyra apareceu sem alisamentos, apliques e perucas com que sempre se apresentou. Também passou a usar trancinhas em estilo afro e tem levado em seu programa discussões sobre alisamentos e outras violências estéticas que as mulheres negras se sentem obrigadas a praticar contra a própria natureza. Outra referência contemporânea de negritude é a cantora e contrabaixista americana Esperanza Spalding. Aos 24 anos, considerada uma das maiores revelações do jazz da atualidade, ela impressiona pela beleza, emoldurada pela vasta cabeleira black, esta sim tipicamente anos 1960. O tema do cabelo das mulheres negras ganhou tanta força nos Estados Unidos que já está em curso uma campanha para que ícones negros da atualidade, como a primeira-dama Michelle Obama e a apresentadora Oprah Winfrey, abandonem o alisamento e a escova.

No Brasil, o cabelo é um fator de identidade negra mais forte que a cor da pele, diz o antropólogo Cesar Sabino, professor da Uni-Rio e estudioso da cultura do corpo. “Como somos uma população miscigenada, o cabelo é que mais denota a real origem de cada indivíduo”, afirma. Não à toa, ele lembra, muitos jogadores de futebol, como ocorreu com Ronaldo por muitos anos, raspam a cabeça. “A cor da pele é clara, mas o cabelo é crespo. Raspá-lo é como eliminar vestígios, passar a fazer parte do grupo dominante.” Daí a força de uma heroína de horário nobre manter seus cabelos crespos. “O cabelo é um dos componentes do corpo humano que mais designam status. Se o cabelo claro e liso da etnia branca é o paradigma de beleza, não há como a maioria não querer se aproximar desse padrão. Mas, se existe valor além desse único modelo, pode haver diversidade”, afirma Sabino.

A fuga do cabelo dito “ruim” surgiu entre as negras americanas nas décadas de 1920 e 1930. Elas criaram pastas alisantes e passavam os cabelos com ferro em temperaturas que chegavam a 150 graus. A moda atingiu o Brasil, embora sem tanta força. No fim da década de 1960, com os movimentos de contracultura e a luta pela liberdade de expressão, despontou o orgulho racial. O cabelo como símbolo da negritude ganhou força no uso do penteado crespo, alto e arredondado que foi chamado de black power (poder negro), mesmo nome do movimento de organização dos negros. O penteado era usado tanto por homens quanto por mulheres, como Angela Davis, principal liderança feminina negra daquela época – o que, de alguma forma, também enfatizava a igualdade de direitos entre os sexos. O que era questão política virou moda, e os fios crespos e volumosos ganharam muitas cabeças. O cabelo se tornava instrumento de protesto. Não à toa, o musical de maior sucesso daquele tempo foi Hair, depois transformado em filme por Milos Forman.

A partir da segunda metade da década de 1980, porém, quase a totalidade dos referenciais femininos de beleza negra voltou ao padrão anterior. A cantora Diana Ross ilustra bem essa evolução: da peruca lisa do começo dos anos 1960, quando integrava o grupo The Supremes, aderiu ao black power na década de 1970, em voo solo, para depois perder gradativamente os cachos na década de 1980. Hoje, estrelas como a atriz e cantora Beyoncé Knowles e a top model Naomi Campbell foram além: são adeptas das perucas lisas. Quase não dá para perceber que são falsas. O que elas usam se chama lace front wig: uma espécie de prótese capilar colada na testa, na parte da frente da raiz – de forma que não apareçam os fios naturais. O resto do cabelo é enrolado como uma touca, bem rente à cabeça, para não fazer volume. Há notícias de que algumas raspam a cabeça e usam apenas a peruca. O resultado é bastante natural, embora vez ou outra apareçam vestígios da cola em fotos de paparazzi. Tyra Banks também era adepta da peruca, até virar ativista pelos cabelos naturais.
No Brasil, onde nas últimas décadas o cabelo liso e claro se tornou modelo de beleza para as mulheres, algumas poucas artistas aderem aos fios naturais. As cantoras Negra Li e Luciana Mello são bons exemplos. Nada se compara, porém, ao efeito Taís Araújo. “É uma linha divisória”, diz o cineasta Joel Zito Araújo, doutor em ciências da comunicação e autor do livro A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira. “A relação da mulher negra com seu cabelo é, historicamente, de trauma e de exclusão.” O professor de história Jorge Alberto Carvalho, que ensina há 20 anos na Cidade de Deus, comunidade carente do Rio de Janeiro, costuma levantar discussões em torno dos cabelos na sala de aula. Ele diz que é o desejo de “pertencimento” que faz com que a maioria de suas alunas, entre 15 e 18 anos, opte por alisar os cabelos: “Costumo perguntar a elas por que não usam o cabelo naturalmente crespo. Uma vez, recebi a seguinte resposta: ‘Se eu passar henê, eles me chamam de morena; se eu não passar, vão me chamar de neguinha’”.
Se a valorização dos cabelos crespos veio para ficar ou é apenas moda passageira, não há como dizer. O fato é que os cabelos das mulheres negras estão na berlinda, numa discussão que é tão estética quanto política. Doutora em antropologia pela Universidade de São Paulo (USP), Nilma Gomes Lino acredita que haja uma revalorização do estilo afro. Para produzir sua tese “Corpo e cabelo como símbolos de identidade negra”, ela pesquisou quatro salões de beleza de sua cidade, Belo Horizonte.
“No Brasil, o padrão ideal é branco, mas o real é negro e mestiço. O tratamento dado ao cabelo pode ser considerado uma das maneiras de expressar essa tensão”, diz. Ela afirma, porém, que a estética dos negros pode ou não estar relacionada com as raízes africanas. Ou seja: se há referências alternativas de beleza para a mulher negra, que ela use essa liberdade para escolher que tipo de cabelo ela quer ter. Liso ou crespo, a decisão é somente dela. 

Fonte: Revista Época: A volta do cabelo crespo.

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